terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Especial Anual de Natal


Sim, leitores, o momento tão aguardado por todos vocês chegou: é natal e, conseqüentemente, é chegada a hora em que posso mostrar toda a minha ternura e genialidade com meu conto anual de natal. Sim, amigos, mais um ano se passou, um ano em que eu vendi ainda mais livros, fiquei ainda mais rico, fui ainda mais adorado, ainda mais iluminado, enquanto vocês... Bem, vocês... É... Bom, vamos para o conto. E já de antemão digo que não precisam agradecer, se Deus me deu esse dom magnífico de escrever como um gênio, eu não faço mais que a minha obrigação de dividi-lo com vocês, pobres almas perdidas.

Bate o sino pequenino, sino de Belém...

Já nasceu o Deus menino para o nosso be-em!

- Alberto, acabou de nascer o filho de Deus, cara! Você precisa dar a notícia pro Rei Melquior, cara! Contamos com você!

- Pô, mas o Rei Melquior mora longe pra caralho, não da pra pingar um pra condução?

- Pra você gastar em cachaça? Nem fudendo! Agora vai, o Rei precisa saber da notícia!

- Não se preocupe, o Rei terá a notícia ainda antes do natal! Nem que eu derrube montanhas, atravesse oceanos, nem que eu dê a bunda!

- Dê a bunda?

- Sim, dê a bunda!

- Ta bom...

E foi-se o bravo Alberto, disposto a enfrentar qualquer perigo para dar a noticia ao bravo Rei Melchior. E não tardou para começar a sua primeira aventura:

- Hei, hei, aonde você pensa que vai com essa pressa toda?

- Preciso dar a noticia do nascimento do filho de Deus para o Rei Melquior da Pérsia!

- Ah, legal, mas pra passar por aqui você tem que pagar pedágio.

- Pedágio? Mas eu não tenho nenhum dinheiro, será que não existe um meio de passar sem pagar o pedágio?

- Bem, a minha área de pedágio só vai até aquela pedra, então se você passar pelo lado dela eu não posso te cobrar.

- Ora, eu não tenho tempo de andar até onde está aquela pedra!

- Mas ela está só a dez metros de distância e...

- E se eu te der a bunda, você me deixa passar?

- Bem, sim, mas a pedra está a apenas dez metros e...

- Vamos logo, homem, que eu não tenho tempo!

- Ta bom...

E assim o bravo Alberto passou por seu primeiro apuro. Mal sabia ele que não seria o último...

- Parado! Isso é um assalto!

- Ai, meu Deus! Mas eu não tenho dinheiro!

- Nenhum?

- Nada, senhor, por favor, não me mate!

- Tudo bem, pode ir.

- Por favor, senhor, tenha piedade! Eu faço qualquer coisa, mas, por favor, não me mate! Eu não posso morrer!

- Não vou te matar, porra, já disse que você pode passar!

- Por favor, senhor, eu não tenho dinheiro! Mas... E se eu te der a bunda, você me deixa ir?

- Ai, caralho, já disse que você pode ir e...

- Por favor, senhor!

- Ta bom, porra, ta bom, abaixa as calças logo!

E com essa astúcia Alberto passou por mais um obstáculo em seu caminho. E foi no deserto que ele encontrou mais uma aventura. Estava caminhando quando tropeçou em uma lâmpada, esfregou-a e, para sua surpresa, de lá saiu um gênio:

- Obrigado por me libertar, amo. Como forma de agradecimento, te concedo três desejos.

- Ai, meu Deus, eu não tenho tempo para pedir desejos, eu preciso dar a notícia do nascimento do filho de Deus para o Rei Melquior da Pérsia, e ele mora longe pra caralho!

- Pois então, você pode pedir para se encontrar com o Rei Melchior, e em um piscar de olhos estará em seu castelo.

- Ora, gênio, por favor, eu não tenho tempo para toda essa burocracia! Será que não tem um jeito de me liberar?

- Te liberar? Mas eu não estou te prendendo, eu ia te conceder três desejos e...

- E seu eu te der a bunda?

- Mas amo, você não tem obrigação nenhuma comigo e...

- Vamos, me coma logo que eu não tenho tempo a perder!

- Ta bom...

Bravo como ele só, Alberto passou por todos os obstáculos de sua viagem, e olha que foram muitos, até que finalmente chegou ao castelo do Rei Melquior da Pérsia:

- Rei Melquior, viajei por três dias e três noites, sem comer e sem dormir, passei por todo tipo de apuro que um homem pode passar, mas tudo valeu a pena, pois posso lhe dar a grande notícia! Nasceu o...

- O filho de Deus, é, já to sabendo.

- Já?

- Ih, já... Faz tempo!

- Ah, é?

- É.

- Ah, ta.

- Aceita um cafezinho?

- Não, cara, valeu, já to indo.

- Pô, assim tão cedo? Paga um dez aí, cara!

- Pô, cara, valeu, mas tô saindo. Abração, cara!

- Falou, maluco!

Ano que vem tem mais. Do seu mestre supremo,

Paulo Coelho

Nenhum comentário: