segunda-feira, 6 de novembro de 2006

O Pastor e a senhora paralítica

- E há quanto tempo a senhora está nessa cadeira?

- Há vinte anos, pastor.

- Há vinte anos numa cadeira de rodas, gente. Tão vendo? Isso é o encosto que não deixa ela andar, que não deixa ela se locomover, que não deixa ela exercer o direito sagrado de ir e vir! Mas agora eu te pergunto: a senhora quer voltar a andar?

- Ah pastor, se Deus quiser, é o que eu mais quero.

- O que? A senhora falou muito baixo, acho que Jesus não te ouviu, repita.

- É o que eu mais quero!

- Mais alto, em nome de Jesus!

- É o que eu mais quero, Jesus!!!

- Mais alto!!!

- É O QUE EU MAIS QUEROOOOOOOO!!!!!!!

- ENTÃO LEVANTA-TE E ANDA, EM NOME DE JESUS!!!!!!!!ANDA!!!!!

- AAAAAAAAAAHHHHHHHHHH!!!

E a senhora levantou, mas não andou. Foi direto para o chão, caindo de nariz, deixando uma poça de sangue sob os sapatos do pastor. Os fiéis assistiam a tudo chocados. O templo ficou alguns segundos sob um silêncio infernal, até que o pastor, limpando seus sapatos, não se conteve e gritou:

- Porra, quem foi o retardado que me trouxe uma velha aleijada, caralho? Tão querendo que eu faça milagre, porra?

Outra vez um silêncio infernal. Mas dessa vez um outro tipo de silêncio, do tipo que se ouve depois que alguém pergunta para um médico, “E então, doutor, é grave?”.

Até que finalmente um fiel quebrou o silêncio, levantou-se e gritou:

- Esse pastor num é milagreiro porra nenhuma! Vamos matar esse filho da puta!!!

Não deu nem tempo do pastor se defender. Centenas de crentes alucinados voaram para cima do homem indefeso. Os que não conseguiram entrar no bolo para bater gritavam palpites de como torturar o pobre desgraçado:

- Chuta o saco dele!

- Faz ele comer a bíblia!

- Enforca ele com a gravata de seda!

- Enfia a cruz no cu dele!

Era como se todos os anos de sacrifícios sem pecados explodissem numa onda de maldade e violência. Mas nem tiveram tempo de torturá-lo, em pouco tempo já nem se reconhecia mais um homem, apenas vísceras em meio a tufos de cabelo e um terno rasgado.

Mais alguns instantes de silêncio infernal, até que o mesmo crente gritou:

- Vamos pegar o dinheiro dos dízimos de volta do cofre!!!

- E quem sabe onde fica o cofre?

- Eu sei, fica no camarim do Pastor!

E a multidão de ex-crentes alucinados correu para o camarim do defunto, mas já era tarde demais. No camarim restavam apenas uma televisão, cinco DVDs da Silvia Saint, um cofre aberto e vazio e uma cadeira de rodas abandonada.

Para não sair de mãos abanando, o crente que liderou a revolta pegou os cinco DVDs da Silvia Saint.

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