domingo, 2 de março de 2014

Aflito

Desde que podia se lembrar, passou a vida com um incômodo constante. Uma aflição permanente que não sabia de onde vinha e nem conseguia explicar. Tudo o que tentava para ter algum alívio só funcionava como paliativo, e na maior parte das vezes o desconforto voltava ainda com mais força após esses breves períodos de descanso. Não raramente alguns desses dias beiravam o insuportável. Faltava ao trabalho, cancelava compromissos, não conseguia se concentrar. Até que certo dia, sentado no metrô, sentiu o dedo mindinho do pé direito apertado dentro do sapato. Sem pensar muito, tirou o sapato e a meia. Mexia o dedinho, e ele subia em cima do outro dedo, descia quando os outros dedos levantavam, parecia perdido, sem direção. Foi então que ele percebeu que o dedinho do pé direito era o que o incomodou durante toda a vida. Saltou do metrô, deixando o sapato direito no vagão, e entrou em uma loja de facas e canivetes no centro da cidade. Olhou rapidamente a vitrine, pediu uma parecida com a que o Rambo usava, e ali mesmo no balcão apoiou o pé e decepou o dedinho. Foi levado para o hospital, chamado de louco, os parentes choravam, e ele pedia sorrindo para que parassem, pois nunca se sentira tão bem. Foi internado em um hospício, mas recebeu alta em pouco tempo, os médicos não conseguiam achar nada de errado no homem. A partir daí passou a viver a vida como qualquer um que se considera feliz. Apesar da dor que foi arrancar um dedo a sangue frio, apesar de ter sido obrigado a se desfazer de uma parte sua, apesar de nunca mais ter conseguido andar da mesma maneira, estava livre, e, enfim, aliviado.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Antena de Celular

Ontem por cima da antena passava um arco-íris. Um arco-íris completo, cruzando o céu por inteiro. Hoje o sol nasceu do inferno, o calor parece castigo, a ansiedade voltou, assim como as incertezas. Agora apenas o que a antena tem são dois urubus a sobrevoando, um atacando o outro a bicadas, brigando para ver qual cai primeiro. Parece que a constante é mesmo a tristeza, a felicidade e a euforia são picos esporádicos de um gráfico linear. Ondas aleatórias em um mar de águas calmas. Tentar se agarrar à essas ondas é loucura, elas não podem durar. Melhor mesmo é aproveitá-las, a subida, o pico, a descida. Até porque o mais provável é que depois delas volte a calmaria. Outras ondas virão. Pode demorar, é verdade. Então que se aproveite ao máximo as ondas. E a calmaria também. Tentando se manter na superficie. Afundar não, nunca mais, deve existir algum limite de afogamentos que o cérebro pode aguentar. Boiar, de qualquer forma possível, com boias de braço do Bob Esponja se preciso. E se os pés estiverem amarrados a âncoras, me agarro em cordas, garrafas pet, me debato como criança, foda-se o papel de ridículo, o importante é manter a cabeça sobre a superfície. Do fundo as ondas passam ser tomar conhecimento da sua existência, e nada pior que vê-las passando sem sentí-las, sabendo que poderia estar por cima delas. Então boiar, boiar nas águas tranquilas, e criar formas de viver nelas. Se entreter com o lixo que vier flutuando em volta, criar coisas do nada, aproveitar tudo que inevitavelmente vai acabar. Buscar conforto no que seja, pílulas, páginas, telas, sons, garrafas, uma voz feminina, observando os outros à deriva, interagindo com os outros à deriva, ignorando os que passam em iates. Mas quando for para escolher entre conforto e liberdade escolher sempre a liberdade, o conforto oprime. Nunca fugir de qualquer onda, não importa o quão grande seja. Mas se eu sei que as ondas virão, se eu consigo vê-las no horizonte, por que eu me preocupo? Por que caralho minha cabeça não relaxa e me deixa boiar?

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Casarão Bege de Esquina


- Êta fandango bão/Bate com pé e bate com a mão!


Era uma grande cena para o grupo de crianças que parou para assistí-la a caminho da escola: uma mulher gorda de meia idade cantando e dançando de camisola, do lado de dentro do portão de um casarão, como se ninguém pudesse vê-la através das grades. Não exatamente cantava, mas gritava os versos, descompassadamente, com as mãos para trás e o pé direito batendo forte no chão. Ia repetindo os mesmos versos, girando em torno de uma fogueira imaginária. As crianças não conseguiam parar de rir, mal acreditando no que estavam vendo. Que sorte presenciar um show desses antes de mais um dia maçante de aulas com professores estressados. Já deveriam ser mais de cinquenta em frente à casa,  não cabiam na calçada e invadiam a rua, carros passavam buzinando, tentando não atropelar nenhuma delas. No andar de cima Graça ouviu a gritaria, de Lúcia e das crianças. Abriu os olhos para o relógio, sete e quinze da manhã. Fingiu não ter acordado e se virou para continuar dormindo. Da mesma forma repentina que começou a apresentação, Lúcia parou, como se nada tivesse feito, e entrou no casarão, aos gritos de “mais um/mais um” das crianças. Fechou a porta, e começou a andar em círculos em volta da mesa de centro da sala. Começou tranquilamente, mas aos poucos foi ficando mais impaciente, batendo os pés com cada vez mais força. Como Graça não acordava, efeito do Rivotril que tomara antes de dormir, Lúcia começou a gritar:


- Tô com fome! Preciso de comida! Preciso de comida! Tô com fome!

Graça não teve outra alternativa a não ser levantar. Tentando se manter calma e sob controle, foi sem pressa ao banheiro, mijou, tomou banho, escovou os dentes, se penteou evitando se olhar no espelho. Lúcia se irritava cada vez mais com a demora:

- Vagabunda! Minha comida! Você quer me matar! Vou morrer de fome! Vai me matar! Vagabunda!

Graça saiu do banheiro, desceu calmamente as escadas e foi em direção à cozinha. As duas não se olharam, Lúcia apenas parou e seguiu Graça até a cozinha. Sentou-se em sua cadeira cativa na mesinha da cozinha, esperou Graça terminar de preparar o café - ovos, torrada, café com leite - e comeu tudo vagarosamente, antes de tomar os três comprimidos que Graça deixou sobre a mesinha ao lado de um copo d’água. Graça se deixou cair no sofá e ligou a tv, com uma xícara de café na mão. A tv a cabo estava fora do ar. Sentiu vontade de chorar e soltou um “Puta que o pariu”, não muito alto, mas o suficiente para que os ouvidos sensíveis de Lúcia ouvissem.

- Puta que o pariu! Puta que o pariu! Vagabunda! Vagabunda! Você não faz nada! Vagabunda!

Gritava de pé, bem em frente à cadeira aonde estava sentada, mas sem olhar para Graça ou qualquer outro ponto fixo. Apenas gritava. Graça levou as mãos ao rosto, e assim ficou por um momento enquanto Lúcia repetia as ofensas, até conseguir energias para se levantar. Quando chegou à cozinha Lúcia parou de gritar. Graça passou por ela e Lúcia a seguiu calmamente, sem gritos. Abriu a porta para os fundos da casa, passaram pelo jardim, que tinha poucas plantas, outrora era bastante florido, agora nenhuma mais nascia. Ficava num pátio espaçoso, com cadeiras, mesas, e uma churrasqueira, que nunca eram usados. Subiram um lance de escadas, passaram por duas portas trancadas de quartos não usados, e chegaram ao de Lúcia. Graça abriu a porta e a ficou segurando enquanto Lúcia entrava. Lúcia entrou e sentou-se na cama. Graça pegou o microsystem, ligou o rádio e colocou no criado-mudo ao lado de Lúcia. Ela ouvia a música sertaneja que tocava balançando-se levemente, para a frente e para trás. Era assim que passava a maior parte de seus dias, ouvindo rádio. Conhecia todas as estações, todas as músicas das paradas, todos os locutores. Não se importava com o calendário, e provavelmente não saberia dizer em que ano estava, se guiava no tempo pelos sucessos que mudavam com as semanas, os meses, os anos.

Graça voltou para a sala, sem energias. Pegou o telefone e ligou para a empresa de tv a cabo. Sentada no sofá com a tv desligada via seu reflexo na tela escura. Magra, cansada, ouvindo imitação de música clássica na espera do atendimento, e Fabio Júnior vindo do quarto de Lúcia. Por isso não gostava de se olhar no espelho. No telefone prometeram que técnicos viriam dentro de algumas horas. Sem ter o que fazer, subiu para dormir mais um pouco até chegar a hora de preparar o almoço.

Eram duas e meia da tarde quando acordou assustada, com Lúcia gritando ao lado da cama.

- Vagabunda! Minha comida! Cadê minha comida! Vagabunda! Não faz minha comida! Eu quero minha comida! Vagabunda!

Levantou-se num pulo, era para ter começado a cozinhar antes do meio-dia. Desceu correndo, com Lúcia repetindo os gritos atrás dela. Colocou uma panela com água para ferver. Tinha miojo sabor bacon, Lúcia gostava de miojo sabor bacon. Se virou, e Lúcia parou de gritar subitamente quando Graça calmamente a pegou pelo braço, e a sentou em sua cadeira na mesinha da cozinha. Antes da água ter tempo de ferver a campainha tocou, eram os técnicos da tv a cabo. Graça pegou Lúcia e a trancou no pátio, do lado de fora da cozinha. Deu uma rápida ajeitada na roupa e nos cabelos, e foi abrir a porta. Lúcia já estava na grade que separava o pátio da entrada da casa, originalmente feita para dois pastores alemães, já mortos. Graça abriu a porta, e antes que pudesse dar boa tarde Lúcia recomeçou a gritaria.

- Vagabunda! Dois homens na minha casa! Vagabunda! Sai da minha casa os dois! Sai da minha casa! Vagabunda!

Parecia mais agressiva pela fome. Muito envergonhada, Graça apontou a sala com a televisão para os homens, que entraram como se não tivessem notado a presença de Lúcia. Um homem começou a mexer nos cabos e no aparelho da tv, enquanto o outro voltou para mexer em cabos na rua. Graça pediu licença e jogou dois pacotes de miojo na panela, torcendo para que eles ficassem prontos em menos de três minutos. Tudo ao som de uma rádio mal sintonizada que vinha do quarto de Lúcia, e de seus gritos, que só cessaram quando Graça a foi buscar no quintal, e a sentou na cadeira da cozinha. Já sentindo o cheiro do macarrão instantâneo, Lúcia se acalmou, e quando teve o prato com aquela quase sopa artificial de bacon à sua frente, comeu sem pressa, como se não tivesse fome, come se fosse uma dama. Graça ficou na cozinha, sem fome, olhando Lúcia comer, sem coragem de ir para a sala encarar os homens trabalhando. Até que um dos homens disse da sala que já haviam terminado. Graça pediu da cozinha um minuto, e para Lúcia que terminasse de comer logo. Mas ela não mudou o ritmo com sua sopa de bacon e miojo mal cozido, e levou mais dois minutos até terminar. Graça entregou-lhe rápido os três comprimidos e o copo d’água, gritou novamente um minuto para os técnicos, para depois conduzir Lúcia para seu quarto com o rádio ainda ligado. Fez isso porque não queria que ela se misturasse com os técnicos. Voltou correndo para a sala, apenas um dos homens ainda estava na sala, ela pôs-se ao seu lado, com a respiração ofegante, enquanto com o controle remoto ele mostrava para ela como agora todos os canais funcionavam. Ela agradeceu, o acompanhou até a porta, e sem saber o que fazer, tirou cinco reais do bolso e deu para o homem, e disse com um sorriso para eles “tomarem um guaraná”. Ele não retribuiu o sorriso, apenas agradeceu, fez um cumprimento com a cabeça, e entrou no carro da empresa de tv a cabo. Ela ficou no portão, olhando o carro ir embora, ouvindo Raça Negra do rádio de Lúcia, se perguntando se tinha se portado de um jeito muito estranho, e por que os homens mal olharam para ela.

Caiu no sofá e ligou a tv, agora sim funcionando. Estava em jejum, mas ainda sem fome. Trocando nervosamente os canais, deu a volta por todos eles até cair nos de tv aberta. Na Sônia Abrão falavam de um assassinato qualquer, e ali ela ficou. Estavam discutindo que medidas precisavam ser tomadas para se proteger as pessoas de bem de crianças assassinas. Matar todas parecia a solução final dos debatedores, mesmo que não dissessem isso. Graça mal prestava atenção, mas ver pessoas conversando em sua sala ajudava a acalmar sua cabeça. Da mesma forma que Lúcia se guiava no tempo pelas músicas das rádios, ela sabia as horas pelo que passava na tv. E se obrigava a ver o que fosse que estivesse passando, por não saber o que mais fazer, esperando a hora de sua prózima obrigação com Lúcia chegar. Estava acabando o casos de família no SBT quando ouviu Lúcia berrando por socorro. Levantou-se assustada, subiu correndo as escadas, e encontrou Lúcia sentada normalmente na beira da cama, olhando para frente, sem gritar mais, ouvindo seu rádio como sempre.

- O que foi Lúcia? O que aconteceu?
- Me ajuda, sua puta! Vagabunda! Não faz nada! Sua puta! Piranha!

Só quando sentiu o cheiro que Graça percebeu. Pegou Lúcia pelo braço e a levou até o banheiro. Encheu a banheira, tirou suas roupas, e a deixou lá boiando em sua própria merda. Catou as roupas, tirou os lençóis da cama, até o colchão estava sujo, levou tudo para o tanque e começou a lavar. Lúcia não costumava cagar nas calças, e Graça pensou que ela fizera aquilo para irritá-la. Enquanto lavava a roupa ouviu Lúcia cantando. Inicialmente achou que vinha do banheiro, mas quando foi estender as roupas no varal percebeu que vinha do portão.

- Êta fandango bão/Bate com pé e bate com a mão!

Lúcia estava nua, encharcada, cantando e dançando em frente ao portão, as mão para trás e o pé direito batendo no chão. Algumas pessoas passavam pela rua aterrorizadas, atravessando a rua para fugir da cena grotesca, outras riam, e até paravam para ver o espetáculo melhor. Graça veio desesperada, agarrou Lúcia, que parou de cantar, agindo com muita naturalidade. Graça a levou de volta para o banheiro e nem terminou de lavá-la, do jeito que estava colocou roupas limpas e a levou para o quarto.

- Cadê meu colchão?
- Você cagou nele, preciso limpar antes de colocar na cama.
- Meu colchão! Devolve meu colchão! Vagabunda! Meu colchão! Vagabunda!

Irritada, Graça correu para o pátio, agarrou o colchão sujo e levou para o quanto de Lúcia. Jogou sobre a cama e não forrou com qualquer lençol, deixou que Lúcia ficasse ouvindo seu rádio sentada no colchão manchado. Desceu e terminou de lavar e pendurar as peças de roupa. Sem energias, decidiu preparar o jantar, se parasse para descansar provavelmente não levantaria mais. Catou os legumes que tinha na geladeira para preparar uma sopa, enquanto ia ouvindo o que tocava no rádio de Lúcia. Daniel, Leonardo, música pop americana, Roberto Carlos, locutores felizes demais para ser verdade, e uma inesperada participação ao vivo do Axé Blond.

Terminou de cozinhar, gritou “janta!” da cozinha, e pôs a mesa enquanto Lúcia calmamente descia as escadas. Encheu o prato de Lúcia, deixou três comprimidos ao lado do copo d’água e sentou-se para tomar um pouco da sopa. Esqueceu do sal, estava sem gosto. Lúcia parecia não se importar e comia com a mesma vontade que comia qualquer prato de comida. Graça tomou cinco colheradas e já perdeu o apetite, aparentemente Lúcia não havia se lavado o suficiente e o cheiro era mais forte que o da sopa. Terminada a janta e engolidos os comprimidos, as duas foram para a sala ver tv. A única coisa na tv que Lúcia assistia era a novela das oito, há anos não perdia um capítulo que fosse. Enquanto Graça assistia ao Jornal Nacional, sentindo medo de pessoas entre 16 e 18 anos - pelas reportagens essa faixa etária era a mais perigosa - Lúcia lia com dificuldade o resumo das novelas na revista da tv, sentada no chão, balançando o corpo para frente e para trás.

- Rosinha morre hoje, tá escrito. Rosinha morre hoje.

Começou a novela, e Lúcia imediatamente parou e vidrou os olhos na tv, atenta a todos os movimentos, todas as falas dos personagens. Graça pensava em como o Rio da tv era diferente do em que ela morava. Tentava se lembrar se alguma vez já tinha ido ao Leblon, com certeza conhecia Ipanema, mas o Leblon... Passavam-se as cenas, músicas, bordões, piadas, e Rosinha continuava bem viva. Ultima cena do capítulo, um beijo de dois personagens quaisquer, e começam a subir os créditos.

- A Rosinha não morreu? A Rosinha não morreu? A Rosinha morre hoje! Tá escrito na revista!
- Talvez amanhã, Lúcia. Fica calma.
- Ela tem que morrer hoje! Tá escrito! Tá escrito na revista! Ela tem que morrer hoje!

Lúcia estava de pé, esbravejando, sacudindo a revista com a mão direita. Graça se levantou, e segurou o braço de Lúcia com cuidado, tentando acalmá-la. Lúcia soltou o braço de Graça, e sua sua raiva se desviou da tv para ela.

- Vagabunda! Vagabunda! A Rosinha tem que morrer hoje! Piranha!

Graça estava perdendo a paciência, e agora agarrou o braço de Lúcia com força, mas um movimento brusco de Lúcia foi o suficiente para que Graça caísse no chão.

- Tá escrito na revista!

Como uma lutadora de MMA, Graça se levantou num pulo, e se atirou com todas forças contra o corpo de lúcia, de cabeça baixa, abraçando sua barriga.

- Piranha! Ela tem que morrer hoje!

Aos poucos, fazendo muito esforço, com Lúcia berrando o tempo todo, foi a empurrando para seu quarto, subindo as escadas com dificuldades, um desequilíbrio com o peso de Lúcia poderia ser fatal para as duas. Finalmente chegaram na porta do quarto, Graça jogou Lúcia para dentro.

- Piranha! Piranha! Ela tem que morrer hoje!
- Pára de gritar, já é tarde, pára de gritar.
- Tá na revista! Vagabunda! Piranha!

Sem energia ou paciência, Graça pôs o volume do microsystem no máximo, e trancou Lúcia lá dentro. Mesmo com o som alto ela continuava berrando, sempre as mesma coisas, xingando Graça e inconformada pela revista estar errada quanto à morte de Rosinha. Atordoada, Graça foi para a cozinha, tomou o dobro de Rivotril a que estava acostumada, e foi direto para cama, ouvindo ao longe o rádio estourado tocando sertanejo universitário e Lúcia esperneando.

A campainha tocava incessantemente. Graça abriu os olhos, eram três e meia da manhã. Levantou tonta pelo calmante, meio anestesiada. A música e os gritos de Lúcia haviam parado. A campainha seguia nervosa, um homem gritava “abre, abre aqui” do portão. Graça desceu com medo. A casa estava esfumaçada. Abriu a porta, um pequeno grupo no portão gritava com ela, algo sobre fogo. Ela abriu o portão, e o grupo adentrou correndo o pátio, um deles carregava um extintor de incêndio. Subiram correndo as escadas, e parada no pátio Graça via o fogo na janela do quarto de Lúcia, uma densa fumaça negra saindo pelos vãos da porta. Os homens chutaram a porta com força até arrombá-la, todos cobrindo os rostos com as camisas, o que tinha o extintor imediatamente o esvaziou no quarto inteiro, enquanto os outros seguravam os braços de Lúcia e a arrastavam pelo chão para fora do quarto. De onde Graça estava não podia vê-la, mas via que um pouco de fumaça saía de onde ela estava, e os homens se lamentavam, viravam o rosto, se apoiando desolados na grade de varanda. Graça vagarosamente subiu as escadas. No terceiro degrau viu a mão de Lúcia, a pele na cor da fumaça. No quarto viu o cabelo e o couro cabeludo queimados. No quinto pôde ver o corpo inteiro, e desmaiou, rolando dramaticamente as escadas. Os homens foram ajudar preocupados com uma segunda tragédia, mas por sorte só teve alguns pequenos hematomas.

O dia seguinte foi cheio. Preparações para o velório e o enterro, em que menos de meia dúzia apareceram, e explicações para a polícia sobre o que aconteceu. Os bombeiros disseram que o que começou o incêndio foi um curto no microsystem. Graça não soube explicar porque a porta do quarto estava trancada, apenas chorava muito. Dizia como Lúcia era a única coisa que tinha na vida, que não sabia o que fazer dali para a frente. O delegado a liberou, prometendo interrogá-la novamente outro dia, quando ela se encontrasse mais calma. Voltou para casa de carona numa viatura. Abriu o portão com as mãos trêmulas, se perguntando para que e para quem viveria agora naquele casarão. Do pátio viu as marcas negras de fumaça ao redor da janela e da porta do quarto, e chorou. Subiu as escadas, entrou no quarto, que tinha um odor constrangedoramente familiar, e viu o microsystem torrado, a cama e o colchão quase em cinzas, e uma marca negra no formato gordo de Lúcia no chão. Deitou-se em choque dentro da marca, para acordar apenas no dia seguinte.

Levantou-se, foi para seu quarto, mijou, tomou um banho, escovou os dentes, e não sabia o que fazer em seguida. Era um domingo, decidiu sair de casa. Evitou encontrar algum vizinho, andou dois quarteirões e parou num bar/padaria. Pediu um café com leite e um pão na chapa. Percebeu perto dela um homem sentado sozinho com um cavaquinho e uma garrafa de cerveja sobre a mesa. Começou a tomar seu café enquanto outros chegavam com outros instrumentos. Quando terminou eles já eram mais de dez, já ensaiando alguns acordes, algumas batidas, ainda sóbrios demais para cantar qualquer coisa. Sentada no balcão decidiu pedir uma cerveja também, há anos não bebia. Aos poucos os homens se animavam, a música ficava mais alta, suas vozes também. Graça se divertia sozinha, ouvindo as conversas e os berros sobre futebol, mulher, causos constrangedores sobre pessoas da mesa que faziam todos rirem. Quando ela estava na quarta garrafa ouviu os homens discutindo sobre onde seria o churrasco, que não daria tempo de ver o jogo, que as carnes já estavam compradas. Sem pensar muito ela foi até a mesa.

- Vocês querem fazer lá em casa? O churrasco?

Um momento de silêncio constrangedor se passou.

- Como assim? Na sua casa? Você quer nosso churrasco na sua casa?
- É, tem uma churrasqueira lá, há muito tempo que ninguém usa, mas tem, e tem televisão também, dá pra ver o jogo.
- Bom, não sei... É aqui perto?
- É, é perto, pertinho.
- É, acho que... Vamo? Bora?

Bora, partiu, partiu, e foram todos os homens, com engradados de cerveja, instrumentos de pagode, caixas de isopor cheias de carne, seguindo Graça pela rua, a única mulher do grupo. Chegaram na casa, alguém apontou para cima e perguntou o que tinha acontecido, Graça respondeu que o quarto estava em reforma. Colou as garrafas no freezer, foi ajudada a tirar as mesas da sala e cozinha e passá-las para o pátio, assim como as cadeiras. Pegou a tv da sala e passou para o lado da churrasqueira, que já estava acesa. Sentou na mesa e foi bebendo muito mais rápido que os outros. Primeiro veio o coração de galinha, depois a linguiça, a picanha. Comemorou os gols do jogo mesmo sem saber quem estava jogando, se abraçava aos homens a cada celebração, teve sua bunda agarrada várias vezes. Depois do jogo se intensificou o pagode, e Graça sambou pela primeira vez na vida, e os homens se divertiam a vendo dançar, perguntando entre eles de onde tinha saído aquela mulher. Sambou por horas, até se cansar e sentar no colo do tocador de cavaquinho, para risada e zoação geral da mesa. Finalmente ficou pronto o prato principal, que chegou com aplausos de todos: um leitão inteiro, por horas torrando na churrasqueira. Serviram um pedaço para Graça. A carne estava seca e a pele queimada, ficou tempo demais no fogo, mas não estava ruim.


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Idéias Para Obras de Arte Conceitual (1)

Idéia#1 - Master System Post Mortem

O cadáver de um homem na faixa dos 25 anos deverá ser empalhado, de forma que fique sentado em um sofá, com a coluna inclinada para a frente, os antebraços apoiados nas coxas, e as mãos de um modo que segurem o controle de um Master System, com os dedões esticados sobre os botões do mesmo. O homem será vestido com uma cueca samba-canção, uma camiseta branca velha com manchas de molho de tomate, e meias de algodão esburacadas. O sofá precisa ser antigo, de tecido marrom e bege, e feder a cachorro. O chão será acapertado em verde-musgo na área da instalação. Os olhos do defunto ficarão bem abertos, olhando diretamente para a frente. Terá a boca entreaberta, de um jeito que provavelmente o faria babar se estivesse vivo. Uma TV ligada 24 horas por dia a um Master System será colocada à sua frente, com o jogo de boxe Heavyweight Champ no videogame, sempre no modo de dois jogadores. O homem deve ser colocado sentado no lado esquerdo do sofá, segurando o controle do jogador um. O visitante poderá então sentar-se do lado direito, apertar um botão no controle do jogador dois, e começar uma luta contra o empalhado. Naturalmente, o boneco do jogador um ficará parado, e o jogador dois poderá bater à vontade no morto, até levá-lo ao nocaute, ganhar por pontos, ou simplesmente se cansar e deixar o defunto não-jogando sozinho.

Idéia#2 - Sangue Poente

Esta instalação só funcionará por volta das 4:30 da tarde às 7:00 da noite. Uma TV LCD 42”, ainda com os decalques de informações técnicas colados em suas bordas, para mostrar se tratar de uma TV recém-comprada, será instalada em uma sala de paredes brancas. Já com os visitantes presentes, o aparelho será sintonizado em um programa policial de fim de tarde, com o volume no máximo, e as portas da sala serão trancadas. Um sistema de captação de som e análise de decibéis identificará o tom de voz e o volume da fala do apresentador. Quando o discurso do mesmo passar de um nível razoavelmente humano, um jato de sangue de porco deve ser expelido da parte superior da TV, em direção aos presentes. Quanto maior a raiva e a gritaria do homem na TV, maior deve ser a intensidade dos jatos de sangue suíno. Quando for proferido pelo apresentador algum dos jargões pré-programados (é o fim do mundo; pena de morte; direitos humanos só existe pra bandido; quer moleza deita no miojo; falta de Deus no coração; eu não tenho medo de ameaça; tem que matar todo mundo; entre outros), de lados opostos da sala deverá sair um grupo de homens representando policiais e um outro representando bandidos. Todos estarão munidos de armas de paintball de aparência realista, e começarão a atirar uns nos outros, com os visitantes no meio do fogo cruzado. O alvo principal dos dois lados, disfarçadamente, deve ser os visitantes. A cada acerto em áreas que possam colocar a integridade física dos visitantes em perigo, como olhos, nariz, seios, saco, o policial que acertou o tiro deverá gritar “Auto de resistência! Auto de resistência!”. Em caso do tiro ser proferido por algum dos bandidos, o mesmo deverá gritar “Fui eu não, senhor!”. Apesar de ter os visitantes como alvo principal, é importante que policiais e bandidos também atirem em seus rivais, e eventualmente em membros do próprio grupo, para que tudo faça menos sentido. Os ataques levarão três minutos, então os homens sairão e deixarão os visitantes ainda trancados e recebendo os jatos de sangue, e só voltarão se outro jargão for dito. A sessão se encerrará ao mesmo tempo em que terminar o horário dos programas policiais, ou quando algum dos visitantes se encontrar gravemente ferido, o que vier primeiro. O não uso de camisas é o que diferenciará os bandidos dos policiais.

domingo, 3 de junho de 2012

O Ceguinho - Episódio 4

- A situação no Brasil tá melhor que na Europa! - disse Sérgio, acelerando o passo enquanto passava por um grupo de moleques cheirando cola. Olhou para trás depois de alguns metros para ter certeza que eles não o estavam perseguindo, e voltou à velocidade normal.
- Você vê, tá todo mundo querendo vir pra cá!
- É? Não sei, acho que não é bem assim...
- É claro que é! A situação se inverteu, nós ficamos ricos e eles pobres. Até a violência tá diminuindo.
- Mas ainda tá bem alta...
- Mas tá diminuindo!

Chegaram ao prédio do escritório. Sérgio deu um boa tarde bem alto para o porteiro, fingindo intimidade, para que todos ouvissem. Continuou falando enquanto esperavam o elevador chegar.

- Você vê, a empregada lá de casa. Tá ganhando 800 reais por mês! Porra, 800 reais pra cozinhar e limpar a casa? Até eu queria um emprego desses! Eu me lembro que, não faz muito tempo, eu pagava 500, fora a condução. Melhorou muito pra elas.
- É, mas mesmo assim... 800 reais não é grandes coisas.
- Como não? Outro dia mesmo ouvi ela falando que comprou um microondas. Um microondas! Agora pobre pode comprar microondas! Você é pessimista, Rogério, tá tudo bem, só não trabalha quem não quer.

Rogério preferiu ficar calado e não continuar a conversa. Chegou o elevador, foram os últimos a entrar. Mesmo com o elevador lotado, Sérgio parou ao lado do ascensorista, para falar com ele quase gritando.

- Teu Botafogo vai tomar uma coça hoje, hein?! Tem que mudar de time, irmão!

O ascensorista, curvado em seu banquinho, deu um sorriso sem graça para não parecer antipático, e respondeu num tom três vezes mais baixo.

- Vamos ver, hoje à noite vamos ver...
- Vamos ver seu Botafogo se fuder!

E com uma gargalhada deu três tapas fortes nas costas do homem, que dessa vez não sorriu, não respondeu ou se mexeu. Não se importava muito com futebol, mas ficou com uma vontade forte que o Flamengo perdesse. Sérgio já chegou no escritório fazendo piada com todos, como de costume. Alguns fingiam achar graça e riam, outros não se davam ao trabalho. Entrou em sua sala, as paredes com alguns certificados e a mesa ocupada por porta-retratos com fotos de sua mulher, filhos, casa de praia, do seu carro novo. O telefone tocou, a secretária anunciando um candidato a emprego.

- Com licença, boa tarde.
- Boa tarde, irmão, pode sentar! Qual seu nome?
- É Márcio.
- Diz aí, Márcio, o que você pretende fazer aqui na empresa?
- Bom, é que... Eu soube que a empresa tá contratando, e... Se vocês tiverem alguma vaga, eu realmente tô precisando... Pode ser qualquer coisa, o que tiver pra fazer eu faço, assistente de... Qualquer coisa, tô aqui à disposição.

Sérgio levantou, segurando o riso, para que o pobre homem não se ofendesse, mas sem conseguir escondê-lo totalmente.

- Você tá nervoso, hein, rapaz?
- Desculpa, é que já tô sem trabalho há mais de um ano...
- Ah, é? E o que você fazia antes de ficar desempregado?
- Era trocador numa van.
- Trocador numa van?
- É, trocador numa van.
- Olha, Márcio... Te confesso que nem sabia que existia essa profissão.
- Não? Acho um emprego até comum.
- É que eu acho que nunca peguei uma van, então... Mas por que você saiu desse emprego? De... Trocador de van.

E riu um pouco, enquanto Márcio não.

- Desculpa, mas é que eu não sabia que isso existia, realmente, e eu gosto muito de brincar...
- Tá certo.
- Mas por que você saiu do emprego?
- A van era ilegal, foi apreendida, fiquei sem emprego.
- Ilegal? Mas aí tá errado, realmente. Por que você trabalhava nisso, se era ilegal?

Márcio se surpeendeu com a pergunta sem sentido.

- Por quê? Porque era um emprego.
- Sim, mas ilegal.

Dessa vez Márcio apenas olhou para Sérgio, tentando entender.

- Márcio, claro que todos queremos vencer na vida, mas de forma correta, não é?
- É.
- Mas diga, por que você ficou esse tempo todo sem emprego?
- Porque não achei nada... Só fiz uns bicos nesse tempo.
- Ah, Márcio, mas tem que correr atrás, nada vai cair no seu colo.
- Eu sei.
- Sim, Márcio, mas sabe, mais de um ano desempregado... Você não acha que com um pouco mais de força de vontade conseguiria um emprego? Um bom emprego? Que sustentasse você e sua família?
- Não.
- Ora, Márcio, o que é isso! Com esse pessimismo não vai chegar a lugar nenhum, rapaz! O desemprego no Brasil está perto de zero! Veja, eu comecei como você, e...
- Não, não começou, não. Seu pai não era dono disso aqui?
- Sim, mas não pense que foi fácil, foi preciso muito esforço e dedicação para mostrar meu valor. Sempre mantive a cabeça erguida e acreditei nos meus sonhos, até que...
- Escuta, tem um emprego pra mim ou não?
- Márcio, não é esse tipo de atitude que vai fazer você vencer. É preciso que você mostre confiança, e com...
- Vai se fuder.

Sérgio sentiu o coração acelerar, surpreso e com medo, enquanto via Márcio sair batendo a porta de sua sala. Sentou-se e sentiu pena de Márcio. Aquela falta de força de vontade nas pessoas era o grande problema de suas vidas, se soubessem levantar e lutar ao invés de ficarem reclamando, certamente poderiam vencer, como ele venceu. As oportunidades estão todas aí, só não as agarra quem não quer. Voltou para o trabalho, que era o que mais gostava de fazer. Trabalhava dez horas por dia, era sempre o primeiro a chegar e o último a sair. Crescer sempre era seu lema, fazer a empresa cada vez maior, ver os negócios se expandindo, os lucros cada vez maiores. Por conta disso passava pouco tempo em casa, teria tempo quando se aposentasse, era o que dizia. Lembrou da final do campeonato, precisaria sair um pouco mais cedo, não costumava fazer isso, mas pelo Flamengo abriria uma exceção.

Saiu do escritório gritando para os empregados que iria ver o Flamengo ser campeão, o Botafogo tomar no rabo, e outros insultos futebolísticos para os que o provocavam. Sentiu-se um alívio geral na empresa quando ele saiu. Pegou seu carro zero japonês, e foi para casa trocar de roupa e buscar seus filhos gêmeos, Roberto e Lucas, frutos de uma enseminação artificial em sua mulher, Luciana. Quando chegou em casa viu a mulher sentada à beira da piscina conversando com algumas amigas, algumas dessas ele nem conhecia, ela não esperava que ele chegasse em casa há essa hora.

- Ué, o que você tá fazendo aqui?
- Hoje é a final do campeonato, esqueceu?
- Ah, é, esqueci.

Ele ficou esperando que Luciana o apresentasse às amigas, mas ela não o fez.

- Bom... E os meninos, onde estão?
- Lá dentro.

Encontrou os gêmeos de oito anos jogando videogame, deu um grito de cheguei e eles apenas responderam oi sem tirar os olhos da tv.

- Vocês esqueceram que dia é hoje? Dia de ver o mengão!

Agora sim conseguiu a atenção dos moleques, que pularam comemorando, não antes de terem salvado o jogo. Vestiu a camisa do Flamengo, assim como os filhos, que vestiram o uniforme completo, com direito a meião e tudo. Pegou uma cerveja na geladeira, bebeu com certa rapidez para não se atrasar, enfiou os filhos no carro e seguiu em direção ao Maracanã. Foi bom ter saído cedo, sabia que pegaria trânsito.

- O Ronaldinho joga hoje, pai?
- Ronaldinho tá jogando nada, Betinho.
- Mas ele joga hoje?
- Joga, mas não devia.
- Devia jogar quem, então?
- Ronaldinho tá jogando nada, Betinho. Nada!

Estavam perto do estádio, com o trânsito parado. Torcedores do Flamengo passavam entre os carros, com gritos de guerra que envolviam empalar o adversário e matar todos os membros de torcidas organizadas rivais. Os gêmeos acompanhavam todas as músicas em uníssono, o que deixou Sérgio orgulhoso. Um grupo da torcida do Botafogo apareceu vinda de lugar nenhum, com seus cânticos igualmente ameaçadores, apesar de saberem que estavam em menor número. Os grupos rivais se ameaçavam à uma distância que parecia segura, cada um de um lado da avenida, o carro de Sérgio bem no meio. Porém pedras começaram a voar dos dois lados, as crianças se abaixaram apavoradas no banco de trás, Sérgio impotente no meio dos carros parados. Ouviu-se um tiro, um torcedor botafoguense caiu. Os torcedores botafoguenses se inflamaram e foram para cima dos carros. Um grupo cercou o japônes de Sérgio, e começaram a balançá-lo com violência.

- É flamenguista, é flamenguista, filha da puta!

Batiam nos vidros e tentaram abrir a porta do motorista sem sucesso. As crianças choravam apavoradas no banco de trás. Deixaram o carro em paz e foram com o resto da torcida enfrentar os adversários. Do carro era possível ver os socos e pontapés que davam uns nos outros, o sangue escorrendo pela cabeça de alguns, até que chegou a tropa de choque da polícia e dispersou civilizadamente com cacetetes e balas de borracha os arruaceiros. Ainda trêmulo de medo, Sérgio tentava acalmar os gêmeos, que continuavam chorando.

- Filhos, isso é normal, acontece em qualquer lugar do mundo! É legal? Não, não é legal, mas acontece, infelizmente. É futebol! Agora parem de chorar e vamos ver o jogo, tá bom?
- Mas e o moço que levou um tiro?
- Ele vai de ambulância pro hospital... Tá cheio de ambulância, tá vendo? Ali, a ambulância. Tá tudo bem com ele.
- Pai, quero voltar, pai.
- Que isso Lucas!? Que voltar! É final! Já disse, isso de briga é normal, acontece, já acabou, vamos pro jogo, é mengão, porra! Por que vocês não continuam a cantar?

E os moleques continuaram, chorosos e sem entusiasmo:

- Chupar meu pau... Urubu comeu teu cu... Limpei com Vagisil... O cheiro de bacalhau...

Estacionou o carro em cima de um canteiro, instruído por um flanelinha, que cobrou apenas 20 reais para que deixasse o carro em lugar proibido. Os gêmeos saíram do carro com medo, agarrados no pai. Sérgio lembrou que era proibido beber dentro do estádio, e virou algumas latinhas antes de entrarem. Pagou dois cachorros-quentes para as crianças, para que se entretessem com algo enquanto o pai ficava bêbado. Ficou bêbado bem rápido, não era muito resistente. Segurando os filhos pelos braços entrou no meio da multidão, tentando passar pelos portões e chegar às cadeiras especiais. Só quando se sentaram, e viram o estádio lotado, com as torcidas cantando, que os gêmeos finalmente relaxaram. E Sérgio ria ouvindo-os cantar:

- Pode espalhar pelas am/fm... Hoje vou tomar banho com o sangue dos pm...

O jogo começou, as ameaças das torcidas continuaram, e Sérgio xingava todos os jogadores em quase todos os lances, além do juiz, claro, e os gêmeos, imitando o pai, faziam o mesmo. Chegou o intervalo.

- Puta que o pariu, essa porra de Ronaldinho tá jogando nada, nada!
- Quem você acha que tem que entrar, pai?
- Ronaldinho tá jogando nada, Lucas, nada!

Começou o segundo tempo, e seguiram os cantos, insultos, etc. Aos 40 minutos, o jogo ainda 0x0, e um jogador qualquer do flamengo sofre falta na entrada da área botafoguense. Ronaldinho pega a bola e Sérgio se desespera:

- Ah, não, Ronaldinho não, esse crioulo não tá jogando porra nenhuma!

Um homem que estava sentado à sua frente, e que por um acaso era negro, olhou para trás ameaçadoramente, e Sérgio, percebendo o que disse, pediu desculpas de forma humilde, aceitas pelo homem, que estava mais preocupado com o jogo do que em bater em um racista.

- Quem tem que bater a falta, pai?
- Sei lá, porra, tem dez jogadores nessa merda. Mas o Ronaldinho tá jogando nada, Betinho, nada!

Enquanto Sérgio falava, Ronaldinho bateu a falta por cima da barreira e acertou o ângulo.

- Ah, eu sabia, porra, eu sabia! Sabia que o Ronaldinho ia fazer gol nessa merda, caralho!

E pulava em êxtase, abraçado aos filhos, que pulavam junto, e gritavam, e abraçaram o homem negro do banco da frente.

- Eu disse, eu disse! Eu não disse que o Ronaldinho ia fazer gol, não disse?
- Disse, disse!
- Eu disse!

Acabou o jogo, Flamengo campeão, nova comemoração, novos pulos e abraços. Betinho deu um pequeno grito, Sérgio apertou o garoto forte demais e machucou sua costela. Ficou dois minutos pedindo desculpas, sentindo uma culpa de bêbado, mesmo Betinho dizendo que não tinha sido nada demais. Saíram do estádio no meio da torcida, Sérgio segurando firme os garotos com medo que se perdessem no meio da multidão. Os três estavam empolgados com a vitória, os garotos felizes de cantarem as músicas violentas e homoeróticas no meio da torcida, apesar do aperto, do calor e do ar abafado entre os milhares de torcedores que desciam as rampas. Chegando na rua, Sérgio comprou outra cerveja, que virou em menos de dois minutos enquanto andavam em direção aonde estacionaram o carro. Sérgio percebeu que os filhos perceberam o quanto ele estava bêbado.

- Eu sei, bebi bastante hoje, exagerei mesmo, desculpa... Mas é mengão, porra! Eu disse que o Ronaldinho ia fazer gol, não disse?

E os moleques riam e concordavam, disse, disse.

- Não foi aqui que eu deixei o carro?
- Foi, foi aqui, eu lembro desse carro verde do lado.
- Não, não pode. Acho que foi mais na frente.

E foram mais na frente, e voltaram, e não acharam o carro, muito menos o flanelinha.

- Tava aqui sim, pai, tenho certeza, do lado desse carro verde!
- Não, não é possível, não pode...
- Tava, tava sim!
- Quer saber, foda-se, não vou me estressar hoje, vamos procurar um táxi.

E foram andando sem destino certo pela avenida maracanã. Sérgio sentiu os garotos assustados com o roubo do carro:

- Porra, é campeão, caralho! Cantem mais, vai!
- Ronaldinho é punheteiro, mas é nosso artilheiro, oi!

Já bastante bêbado, Sérgio ria compulsivamente enquanto andavae os filhos cantavam, não tinha mais a menor lembrança do carro. Enquanto ria, percebeu um cego vindo em sua direção, já quase na sua frente. Agarrou o homem pelos obros e começou a gritar alegremente:

- É mengão, ceguinho! Mengão campeão, ceguinho! Mengão campeão!

Mas sacudiu o cego com força demais, e acabou o derrubando no chão. Os meninos levaram um susto, e Sérgio também, parou de rir imediatamente. A culpa de bêbado veio mais forte dessa vez, e rapidamente foi ajudar o cego a se levantar.

- Senhor, perdão, por favor, eu não queria... Era pra ser só uma brincadeira... O Flamengo foi campeão, eu tô feliz pra caralho, o senhor sabe...
- Sei, é fácil ser feliz mentindo para si mesmo.

E seguiu seu caminho. Sérgio ficou parado, olhando o ceguinho ir embora, digerindo aquela frase que ele não entendeu bem o que queria dizer. As crianças estavam assustadas, já era tarde da noite, e nunca haviam visto o pai tão bêbado, ainda mais derrubando um cego no chão.

- Pai, pai, vamos embora?
- Vamos, vamos embora.

Agora iam andando pela rua em silêncio, esperando passar um táxi livre, como se o prazo para comemorar estivesse se esgotado. Depois de cinco minutos Sérgio conseguiu um carro, deu o endereço na Barra, e foram todos sem dizer palavra, os gêmeos de oito anos dormindo no banco de trás, o pai bêbado e pensativo no banco da frente. As puxadas de assunto do taxista sobre o Flamengo eram respondidas com monossilábicas por Sérgio. Chegaram em casa, abriram a porta e Luciana veio correndo abraçar os filhos:

- Meu Deus, vocês tão bem?
- Tamo, Flamengo foi campeão.
- Ai meu Deus, que susto vocês me dão... Por que você não atendeu o celular, Sérgio?
- Deixei no carro...
- Eu tava preocupada... Mataram um homem lá, da torcida do Botafogo, deram um tiro antes do jogo começar, e eu não sabia onde vocês estavam...
- Era... Era aquele que a gente viu, pai?

Sérgio fez com a cabeça que sim, e Lucas começou a chorar. Betinho não chorou, mas parecia três vezes mais branco que o normal.

- Ah, Sérgio, puta que o pariu, Sérgio!

Enquanto Luciana levava as crianças para dentro Sérgio pegava outra cerveja na geladeira. A imagem do homem baleado veio em sua mente. Ele viu o torcedor sendo atingido na cabeça, e mesmo assim deu pouca importância ao fato. Mentiu aos filhos, disse que não havia sido nada, e pelo resto da noite esqueceu completamente que aquilo havia acontecido. Só quando Luciana deu a notícia que ele percebeu, viu um homem morrer e passou a noite comemorando. Terminou a cerveja e foi para a cama fingir que dormia, enquanto Luciana ainda estava com os garotos, antes que ela viesse encher seu saco. Deitado com os olhos fechados só conseguia ver as brigas, os torcedores balançando seu carro, o homem baleado, o ceguinho e sua frase. A alegria por seu time parecia ter perdido espaço para algo que ele não sabia o que era.

Acordou mais cedo que o normal e viu que Luciana não estava mais na cama. A encontrou na sala, a tv ligada no jornal matinal, imagens da briga entre as torcidas passando repetidamente. Em alguns momentos era possível ver seu carro japônes sendo sacudido no meio da multidão. Mas a cena mais repetida era a do torcedor baleado, sendo carregado pelos amigos, o sangue escorrendo da cabeça para o rosto. Luciana percebeu a presença de Sérgio na sala:

- Tá vendo? Olha onde você levou nossos filhos. Meu Deus, é seu carro ali, não é seu carro? Hein, Sérgio?

Foi só quando olhou para trás do sofá que viu Sérgio chorando copiosamente. Nunca vira o marido chorando antes. Ele estava em pé estático, os braços caídos, e chorando. Ela levantou correndo e foi o abraçar.

- Que isso, amor, pelo amor de Deus... Eu disse alguma coisa? Eu não queria... Pelo amor de Deus, pára, fica calmo!

Os braços continuavam para baixo, ele não devolvia o abraço, e chorava de uma forma que parecia nem estar respirando.

- Calma, Sérgio, calma, senta aqui, eu vou buscar um copo de água com açúcar.

A tv havia parado de repetir os lances de violência, passou a mostrar os lances da partida, o gol do Ronaldinho, as comemorações, praças lotadas e coisas do tipo. Sérgio já havia feito um esforço para se controlar e parar de chorar.

- Aqui, amor, bebe, bebe. Tá melhor agora? Por que você chorou tanto? Você conhecia o homem que morreu? Não aconteceu nada com vocês ontem não, né? Bom. Você vai trabalhar hoje? Porque tá quase na hora de você sair.

Ele não sentia forças para responder, apenas fazia sinais com a cabeça. Luciana deu um beijo em sua cabeça e ele foi se arrumar. Tomou um café e saiu, dizendo um tchau meio tímido para a mulher na saída, a primeira palavra do dia. Saiu com a chave do carro na mão, mas se lembrou que o carro havia sido roubado, ou talvez rebocado, não sabia e não conseguia se importar. Andou vinte minutos até chegar a um ponto de ônibus. Lembrou do Márcio, o trocador de van desempregado, e decidiu que pegaria uma van para o trabalho. Entrou na primeira que levava para o centro, estava lotada, teve que ir em pé, com a cabeça curvada encostando no teto. Chegou ao centro e saiu da van com uma forte dor nas costas e no pescoço. Andando devagar via coisas que não costumava reparar. Um grupo de mendigos e crianças fumando por um cachimbo de latinha de coca-cola, outro grupo se banhando em um chafariz da Praça Tiradentes, um moleque arrancando a bolsa de uma mulher e saindo em disparada no meio da multidão no Largo da Carioca. As mulheres bonitas que ele costumava encarar agora passavam desapercebidas por ele, não virava o rosto para ver as bundas em saias apertadas, só percebia os rostos tristes, os feios, os cansados. Parecia ter acordado em uma cidade diferente, em uma vida diferente. Tudo parecia mais sujo e malcheiroso. Chegou ao prédio onde trabalhava após uma viagem total de duas horas e meia, que com seu carro japonês costumava fazer em uma hora e pouco.

- É a ressaca, né?
- Hã?
- A ressaca da comemoração de ontem, não é isso?
- Desculpa, Seu Geraldo, não vi o senhor. - apesar do porteiro estar sentado no mesmo lugar em que sempre ficava. O porteiro ficou esperando uma resposta, mas não recebeu. Sérgio apenas esperava o elevador em silêncio. As portas se abriram, o ascensorista viu Sérgio entrando e se preparou para a sessão de provocações desnecessárias.

- Desculpa.
- Como?
- Desculpa, por ontem, as piadinhas.
- Que isso, Seu Sérgio, eu não me incomodo, não foi nada demais.

E Sérgio não disse mais nada, nem ao menos um até logo quando saiu do elevador. Entrou no escritório e flamenguistas e puxa-sacos começaram a gritar comemorando. “É campeão, Seu Sérgio!”, “Mengão, porra!”, e ele deu um sorriso forçado, mal levantando a cabeça para olhar para os empregados, que se calaram surpresos assim que ele se trancou em sua sala. Se afundou na cadeira, e só o que vinha em sua cabeça era o botafoguense baleado, banhado em sangue, a memória do que aconteceu se confundia com as imagens que ele viu pela televisão. E lembrava com profunda vergonha de como derrubou o ceguinho, e da frase que ele lhe disse, aquele frase que ele não conseguia esquecer. Olhou para as fotos em sua mesa, a casa na praia, o carro japonês, e tudo parecia ter perdido seu valor. Viu a foto com sua família, e chorou. Usou o telefone para avisar à secretária que cancelasse seus compromissos para o dia, pois iria voltar para casa. Saiu da sala e a secretária veio ao seu encontro junto com mais dois funcionários:

- Mas como o senhor vai embora se acabou de chegar?
- O senhor tá bem, Seu Sérgio?
- Posso fazer alguma coisa?
- Não, não é nada.

Respondeu com o mesmo sorriso forçado, dessa vez com os olhos vermelhos, e saiu do escritório enquanto todos o olhavam em silêncio. Saiu do prédio sem dizer mais nada ao ascensorista ou ao porteiro. Entrou em um ônibus para a Barra e pegou no sono, foi acordado pelo trocador no ponto final. Agora teria que andar quase uma hora para chegar em casa. Poderia pegar um táxi, mas decidiu que andar o faria pensar melhor, talvez conseguisse entender o que estava acontecendo. Mas seu raciocínio dava voltas apenas para chegar no mesmo lugar. Luciana estava abrindo a porta da garagem para sair com o carro quando viu o marido andando vagarosamente pela rua, suado, com uma aparência exausta, triste. Foi correndo até ele:

- O que aconteceu, Sérgio, o que houve, por que não está no trabalho?

Ele olhou no fundo dos seus olhos negros, a abraçou jogando o peso de seu corpo, sem forças, quase derrubando Luciana, e tornou a chorar, sem saber o porquê:

- Desculpa, Luciana. Desculpa.
- Mas desculpa por que, Sérgio? Aconteceu alguma coisa?
- Nada, Luciana. Só me desculpa.

Ela chorava também, um choro nervoso por não entender o que havia acontecido com seu marido. Foram andando para casa, ela o ajudando a andar como se faz com um bêbado. Entrando em casa ele se jogou no sofá, ligou a tv e ali ficou. Apenas levantava para ir ao banheiro e fazer as refeições. Luciana perguntava o que ele tinha, o que poderia fazer para ajudar, e ele seguia respondendo que nada, que iria passar. Ela o abraçava e o beijava, e ele tentava retribuir, sem muito ânimo. As crianças viam o pai deitado no sofá e tentavam falar com ele, mas suas respostas eram vagas. Luciana disfarçava, dizia para os garotos que o pai deles estava apenas cansado, estava trabalhando muito, que fossem jogar video-game e o deixassem descansar. Chamou o médico da família, que diagnosticou estafa, prescreveu um calmante, em alguns dias ele deveria voltar à ativa. Luciana se tranquilizou um pouco com a notícia do médico, apesar de ainda desconfiar que o que Sérgio tinha não passaria em alguns dias. Alguns dias se passaram, sem que Sérgio melhorasse, faltando ao emprego, mal saindo do sofá. Apesar do amor e preocupação que recebia da família, quanto mais tempo passava sem se manter ocupado, mais se sentia vazio. Luciana não estava em casa, e ele sentiu a necessidade de sair. Com um par de chinelos velhos, uma bermuda surrada e uma camiseta suja, foi andando para o ponto de ônibus. Pegou o primeiro ônibus a passar, e após um bom tempo de viagem percebeu que estava na Tijuca. Saltou, e foi andando em direção ao Maracanã. Não se surpreendeu quando, já perto do estádio, viu o ceguinho andando em sua direção. Parou, e esperou que ele chegasse. O cego se aproximou, com seu sorriso debochado de sempre, e já estava abrindo a boca para falar alguma coisa, mas Sérgio foi mais rápido:

- O que o senhor fez? Por que me disse aquela frase? Apenas porque o derrubei no chão? Eu estava bêbado, meu time tinha acabado de ser campeão... E eu pedi desculpas, não pedi? Então por quê? Eu era um homem feliz, com meu emprego, minha família... Mas agora parece que tudo está acabado e destruído. E por quê? Será que é pecado ser feliz? Hein, ceguinho? É pecado ser feliz? Responde, filho da puta. Responde!

O ceguinho ficou boquiaberto, sem saber o que dizer. Não esperava aquela reação de Sérgio, não esperava aquelas palavras. Era como se aquilo não estivesse programado. Nervosamente tentou manter o sorriso sarcástico, que claramente não era mais o mesmo, e começou a andar mais rápido que o normal, enquanto Sérgio o olhava ir embora, gritando se era pecado ser feliz, uma pergunta que o ceguinho não sabia que precisaria responder.




quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Abstinência

Rolando na cama sem lençóis, sobre um colchão de idade desconhecida e um travesseiro sem fronha, tentava dormir há mais de 3 horas. Há uma semana não dormia bem. Não bastassem os tremores, a ansiedade, o nervosismo, a boca seca, agora passava os dias exausto, com fortes olheiras, apesar de menos inchado. Quando dormia tinha sonhos horríveis, e muito realistas. Neles via amigos há muito esquecidos, parentes mortos, ou que há muitos anos não via, e se via trabalhando em empregos de 20, 30 anos atrás. Mas os reencontros e as experiências nunca eram agradáveis, especialmente quando ele acordava e lembrava o que havia acabado de sonhar. Então sentia arrependimento, remorso, tudo o que ele jogou fora na vida estavam naqueles sonhos, o que ele poderia ser e onde poderia estar não fosse a vida que levou. Nessas horas era impossível voltar a dormir, e aquelas poucas horas de sono e suas consequências era o que ele carregava para o resto do dia. Saía para procurar emprego e as pessoas o olhavam com estranheza. Sentava atrás de uma mesa para uma entrevista mas não podia controlar o próprio rosto, tinha espasmos que o faziam parecer culpado, e mesmo que não estivesse se sentindo nervoso, era como se estivesse sendo interrogado por assassinato. Era rapidamente dispensado pelo entrevistador, pelos lojistas, pelos gerentes de sapatarias, donos de restaurante, que prometiam ligar se surgisse uma vaga, e ficavam com seu bom currículo, que há essa altura já não parecia valer mais nada. No estado em que estava, até um moleque com segundo grau incompleto teria mais chances. Entrou num ônibus para voltar para casa, enfiou a mão no bolso e não achou o dinheiro. Estava furado, as moedas contadas perdidas. Perguntou pro motorista se não dava pra quebrar o galho, ele ficaria em pé antes da roleta, mas o motorista educadamente o enxotou no próximo ponto. O jeito era voltar a pé, mais de uma hora de caminhada, as pernas nunca pareceram tão pesadas, apesar de ter emagrecido. O problema de andar é que te obriga a pensar, e ele não queria pensar. Mas pensou, no presente, no que seria do futuro, se aquele esforço valeria a pena, já que não parecia levar a lugar algum. Sentia os olhos nas ruas, pois andava de forma estranha, irregular, tinha as mãos trêmulas, suava e não estava calor, o rosto com leves contrações involuntárias. O calmante que o médico receitou de nada adiantava, além de continuar ansioso e com vontade de beber, só o deixava ainda mais cansado e desmotivado, sem conseguir dormir. Parou de tomar no segundo dia. Na esquina da rua onde morava estava o boteco habitual. Há um mês não entrava ali. Olhou para dentro e viu os rostos familiares.

- Ih, alá, o Fernando! Senta aí, porra, pra falar do seu vasquinho!
- Deixa o cara, ele parou de beber...
- Parei porra nenhuma! Cadê o Manel? Aí, Manel, uma cana aqui pra mim!

E voltou às discussões sobre futebol de sempre, e às opiniões políticas bêbadas de sempre, e à euforia seguida de melancolia depois de muitas doses como sempre. Mas pelo menos momentaneamente a dor parecia ter ido embora. O bar fechou e ele pediu para pendurar a conta, prometeu que pagaria tudo o que devia no próximo mês. Chegou em casa cambaleante e mal conseguia abrir a porta, sentir aquela velha tontura novamente o deixou satisfeito. Procurou um isqueiro verde que havia deixado em cima da mesa e não encontrou, até que se lembrou que havia ganho aquele isqueiro em um sonho recente, de um tio já morto. Acendeu o cigarro no fogão, e se deitou para dormir. E finalmente conseguiu dormir, o sono profundo que o seu cansaço tanto pedia. Acordou com o sol nascendo, com uma fumaça densa pela casa, e o grito dos vizinhos do lado de fora. O fogo já havia tomado conta de tudo, se levantou, foi correndo para a porta e queimou os dedos virando a maçaneta. Tinha outras partes do corpo com algumas queimaduras também, mas leves. Saiu tossindo, os vizinhos o ajudando a caminhar, os bombeiros já haviam sido chamados. Sentou no meio da rua, olhando o fogo consumindo tudo o que tinha. Todos seus documentos, as fotos de infância, da juventude, de tempos melhores, as cartas, todas as lembranças destruídas. Começou a rir. Os vizinhos falavam com ele, e o sacudiam, mas ele não ouvia nem percebia a presença deles, apenas ria. Chegaram os bombeiros, para começar a controlar o fogo, mas já estava tudo perdido. Um policial apareceu e colocou a mão em seu ombro, perguntando alguma coisa, mas ele se desvencilhou, levantou, e, ainda rindo, começou a correr, apenas com a roupa que vestia no dia anterior no corpo e um isqueiro verde na mão. Nunca mais foi visto na cidade.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O Telefonema


Acordou num susto e olhou para o relógio, eram três e vinte e três da manhã. Levantou a cabeça irritada, pois estava tendo um sonho agradável, algo relacionado a ela e às tartarugas ninja correndo atrás de seu marido para matá-lo. Ou “só para dar um susto”, como ela disse para as tartarugas, que deram um sorriso irônico e pediram o pagamento em pizza. Mas não deu tempo das tartarugas terminarem o serviço, pois ela tinha acabado de ser acordada por um telefone. Num primeiro momento achou que fosse o de casa, mas não era, tanto que seu marido continuava dormindo. Babando e roncando mais alto que o toque do aparelho, porém foi o toque que a fez acordar. Se lembrou de quando os filhos ainda moravam em casa, e de como ficava apavorada quando eles estavam na rua de madrugada, e o telefone tocava, e ela quase enfartava. Nunca aconteceu de ser nada sério, normalmente eram trotes, ou alguém bêbado, uma vez foi o irmão avisando que sua mãe havia morrido, mas nada que tivesse relação com os filhos soltos pela noite. Mas o telefone continuava tocando, e ela não conseguiria voltar a dormir enquanto ele não parasse. Deitou a cabeça no travesseiro, de olhos ainda abertos, esperando ele parar de tocar para poder fechar os olhos novamente. Porém o telefone tocava incessantemente, nem ao menos dava o intervalo comum entre uma tentativa e outra. Passaram-se alguns minutos, e mesmo a contra gosto ela levantou-se da cama para tentar descobrir de onde vinha o barulho. Abriu a janela, e percebeu que vinha da janela de cima. Morava lá uma senhora idosa e o marido, tinham filhos e netos. E se o telefonema fosse para avisar de alguma urgência com um deles, e os velhos por algum motivo não acordassem com o toque do telefone? Talvez tomassem remédios muito fortes, sim, provavelmente, doses de ansiolíticos maiores que o necessário. Era melhor matar um pouco de tempo, talvez ele parasse de tocar. Foi ao banheiro, bebeu água, ligou a tv da sala, assistiu alguns minutos de um programa evangélico, pessoas dando opiniões sobre o estupro, 65% diziam que sim, 35% que não, mas o telefone não parava, e ela pensava nas possibilidades. Poderia ser um acidente de carro, até com alguma criança envolvida, deus que me perdoe. Ou um sequestro, um sequestro relâmpago, o dinheiro em cinco minutos ou a filha dos velhos morria. Estava indecisa, mas nervosa demais para ficar parada, precisava fazer alguma coisa, de qualquer forma não conseguiria dormir até que aquilo se resolvesse. Calçou os chinelos, abriu a porta com cuidado para que o marido não acordasse, e mesmo de camisola subiu pela escada para o apartamento dos velhos. Um toque na campainha, um minuto e ela colou o ouvido na porta, nenhum barulho a não ser o telefone ensurdecedor. Tocou a campainha novamente, dessa vez com mais veemência. Ainda nada. Bateu na porta com força, sem se incomodar com os vizinhos.

- Dona Carmem!? Dona Carmem, abre a porta, o telefone!

Ainda nada.

- Dona Carmem, por favor! Atende, Dona Carmem! Pode ser importante!

Será que eles estavam em casa? Claro, eles estavam sempre em casa a essa hora, o máximo que faziam era ficar fora até às dez, hora em que o mercado fechava. Então porque não atendiam? Voltou para casa, novamente abrindo a porta com cuidado, o marido ainda roncava como um porco, e ela cada vez mais preocupada. Poderia ligar para a polícia, mas até eles chegarem... Fatalmente seria tarde demais, já estariam todos mortos, deus que me perdoe. Precisava agir. Entrou no quarto, o marido em sono profundo. Olhou pela janela, tinha o ar-condicionado na altura da cintura. Poderia subir nele. Dava para ver que a janela dos velhos também estava escancarada. Então primeiro subiria no ar-condicionado, depois poderia se agarrar aos tijolos em cima da janela, para trepar no ar-condicionado dos velhos, e entrar pela janela. O barulho era cada vez mais alto, mais perturbador, não tinha tempo para pensar. Subiu no ar. O marido acordou, com o barulho do aparelho reclamando do peso.

- Janaína, o que você tá fazendo?! Vai se matar, pelo amor de deus!
- É o telefone...

E o aparelho na penúltima prestação não aguentou os oitenta quilos e caiu do oitavo andar com a mulher, que enquanto caía não pensava na morte iminente, apenas lamentava ter de ficar sem saber o que dizia o telefonema. Com o barulho da mulher e do ar-condicionado se espatifando, e do marido gritando em desespero, finalmente os velhos acordaram, e a velha foi confusa atender o telefone.

- A-alô?
- Setembro chove?